sexta-feira, 16 de março de 2012

Voando nas entrelinhas.



Não sei me explicar fazendo jus ao meu coração feito de estrelas, pássaros e borboletas. Prefiro romancear o que vejo, e tornar o improvável em algo incrível, como Van Gogh o fez. ”Não tenho certeza de nada, mas a visão das estrelas me faz sonhar.”

É muito bacana ter alegria e sonhar colorido. Agradeço ao meu Deus pelo dom da renovação que carrego, pela gratidão por tudo que já vivi, reconhecendo os meus limites e dificuldades, por já saber que não se encontra mais felicidade em qualquer coisa do mundo do que nas pessoas que cruzam as nossas vidas, e sobretudo pela fé que me alimenta os sorrisos, me ensina a ver a vida de uma forma abençoada, com respeito, cuidado, e uma esperança que não finda, que brota em si, igual à natureza podada de Cecília Meireles, que das suas partes, se refaz inteira.

Também sei que é necessário aprender a não depender somente da esperança para esperar o amanhã. Ao passo em que ela nos alimenta o caminho, nos dando fôlego para segui-lo, há a construção da autoconfiança, e de materialização dela. Simone de Beauvoir dizia que “É horrível assistir à agonia de uma esperança.” Deve mesmo ser. É frustrante depositar as nossas escolhas em um vale de sonhos, e vê-las destruídas pelo tempo e atitudes. Tudo o que é dito somente, vira pó se não feito. O tempo leva. Por isso, é preciso aprender a nossa medida, aquela que nos cabe inteiros. Em tudo. O equilíbrio é que nos faz mais, ou menos felizes. Balancear o que é importante sobre o que é irrelevante nos nossos dias, é uma tarefa com alteração constante. Inalterado o nosso eixo central, aquele que sustenta o nosso olhar sobre o mundo, tudo o mais é mutável. Iremos nos revisar tanto durante o caminho, que se olharmos para uma curta distância de dez anos passados, teremos sido outras pessoas, com outras prioridades, vontades, companhias. Até o nosso norte mudamos por desejar ir pro sul, em muitos dias. O sol há de nos seguir. 

Das nossas certezas, que nunca são tão inteiras, sei do que não desejo. Esta é uma certeza. Sei do que não quero. Agora, se ela é variável? Todas elas o são. Não existe nenhuma definição permanente para nada, e até mesmo as nossas vontades, aquelas mais aquietadas dentro da gente, um dia vão acordar carentes de serem de outra forma. Mário Quintana tem lindas palavras, que nos conforta sãos entre as marés dos quereres...” Nada jamais continua, tudo vai recomeçar!” É que tudo recomeça a cada instante. Cada uma das palavras que dizemos, seguidas das coisas que fazemos, definem as nossas escolhas, e apenas uma delas, um sim, ou um não, poderá nos dar outro rumo, a cada minuto. Incrível este poder de autoconstrução que temos nas mãos, não é? E ele, o Quintana, continua...” Quem disse que eu me mudei? Não importa que a tenham demolido: A gente continua morando na velha casa em que nasceu.”  Sempre teremos o nosso alicerce. As nossas lembranças, educação, família, ideais, sonhos, e até mesmo as nossas quedas, nos colocaram dentro de um livro de história pessoal. Não sabemos que final terá, mas as suas páginas sempre serão a nossa casa. Não importa onde estamos, os nossos passos, que somos nós, nos trouxeram até aqui, e é a partir daqui que sempre poderemos continuar, que quer dizer recomeçar. Eu recomecei continuando, e continuarei recomeçando a cada dia, independentemente do tempo que estiver aqui, ou da idade que tiver. É assim para todo mundo. Cada dia, um recomeço disfarçado de continuação. O que posso continuar fazendo hoje, ou quem sabe, descontinuar?

Falo tanto, sobre tantas visões, e quase sempre o que digo é a mesma coisa. Que eu sei que o amor é lindo. Mas acredito que ele “só é lindo, quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser.” A Florbela Espanca morreu dolorida, mas no seu peito vazio ainda via horizonte nas suas esperas. Isto a iguala a todos nós que somos filhos do romance com a esperança... ”E se um dia hei de ser pó, cinza e nada, que seja a minha noite uma alvorada, que me saiba perder... pra me encontrar...”

Enfim, sigo me revelando ainda muitas coisas...mas por enquanto termino hoje me dizendo só Clarice...

“Tudo acaba, mas o que te escrevo continua. O melhor está nas entrelinhas.”

Mona.
Crato, Março de 2012.

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