terça-feira, 3 de abril de 2012

Asas.


"Nenhuma pessoa é lugar de repouso."
Duclós

"Com o tempo, nos tornamos pessoas maduras, aprendemos a lidar com as nossas perdas e já não temos tantas ilusões. Sabemos que não iremos encontrar uma pessoa que, sozinha, conseguirá corresponder 100% a todas as nossas expectativas. sexuais, afetivas e intelectuais. Os que não se conformam com isso adotam o rodízio e aproveitam a vida. Que bom, que maravilha, então deveriam sofrer menos, não? O problema é que ninguém é tão maduro a ponto de abrir mão do que lhe restou de inocência. Ainda dói trocar o romantismo pelo ceticismo, ainda guardamos resquícios dos contos de fada. Mesmo a vida lá fora flertando descaradamente conosco, nos seduzindo com propostas tipo "leve dois, pague um", também nos parece tentadora a idéia de contrariar o verso de Duclós e encontrar alguém que acalme nossa histeria e nos faça interromper as buscas.”
Martha Medeiros

Resolvi enfim levar o meu carro à revisão. O tempo ido além do marcado me obrigou a organizar isto como prioridade. Pensei que gastaria algumas horas do meu dia entre o não tão rápido e o muito enfadonho de sempre, além de ver pessoas que em outra língua, falam sobre peças, reposição e condução. Como posso esquecer que a vida surpreende-nos sempre que a colocamos na inércia de uma rotina que ela não aceita para si? Incrível entender que mesmo tudo estando aparentemente encaixado, uma das rodas, o sistema de freio ou suspensão nos mostram o poder da sintonia, ou da falta dela.

O senhor que me atendeu levou-me a uma sala clara, com apenas uma mesa e duas cadeiras. Pelo tom, achei que precisaria de concentração para entender a explicação que viria logo após o trinco da porta anunciar que era hora.

- O seu carro está acomodado, senhora. Avisamos na última revisão que a velocidade média até os 10.000km deveria ser abaixo de 80km/h a fim de evitar que as peças aprendessem a gastar esta quantidade de combustível que é gasta a mais quando temos uma velocidade maior, caso tivesse cumprido isso, certamente a senhora teria um carro mais econômico.

Pensei por intermináveis três minutos, e enquanto ele achava que eu não entendera o que ele me dissera, me via muito longe das suas lições de economia periférica. Com o meu pensamento, saí da sala, entrei na central do meu coração... Algo estava errado...“as peças aprendessem?” Então hoje em dia até as peças de carro, feitas em série, iguais e torneadas em qualquer lugar do planeta, viciam-se limitadamente ao aprendizado comum, ou dependendo de quem as conduz, podem aprender sobre como fazer o que é série ser singularmente melhor? Será isso redundante?

Percebi que assim como no meu carro, também na minha vida há peças sem o devido (mesmo que eu não o almeje perfeito) encaixe. Estes desencontros de engrenagens reduzem o aproveitamento e desempenho dos meus sentimentos como um todo, e que guardados em algum lugar entre o porta luvas, o que virá e o que passou, deveriam ser colocados todos na linha de ordem do que é mais verdadeiro e importante para que tudo funcione com sequência e alegria. Na próxima revisão tentarei que estejam em um melhor lugar.

“Verdadeiro e importante”...
Isso me fez lembrar do Neruda quando ele diz que “A verdade é que não há verdade”...Olhando para o atendente mesmo sem vê-lo, entre risos ouso contrariar o Neruda e me declaro que acredito na existência das verdades, embora aceite que elas sejam variáveis. A verdade existe, mas ela é tão fluida e particular que podemos perdê-la entre a primeira e a segunda marcha. O que é importante é que aprendamos o tempo entre uma e outra, a fim de evitar o prejuízo daquelas peças que acumulam erros – de fábrica- em uma parte tão bacana da sua composição, a memória.

Como Goethe, sei também que “Pensar é fácil. Agir é difícil. Agir conforme o que pensamos, isso ainda o é mais”. E eu diria que entre pensar e agir, está o sentir, que interfere absolutamente no que vai acontecer dessa junção veloz e ansiosa. Quanto à velocidade, ela é vontade pessoal e intransferível de cada condutor. Não há ajustes ou medidores capazes de limitar esta intensidade latente. Sem saber como, me vejo de asas curtas, voando sobre trilhos, com o chão quase aos meus pés, e penso que a Lispector me corrigiria dizendo: "Não entenda, apenas sinta. Tenha medo de um dia entender e deixar de sentir!” 

O senhor a minha frente me chama pela segunda vez...:
- Senhora? Entendeu o que eu lhe disse? Será necessário trocarmos a válvula principal do tanque. É ela que está interrompendo todo o fluxo normal do abastecimento.

Sim, entendi. Devo trocar de asas. Devemos fazer jus àquelas que ganhamos ao nascer. "Suas asas, amor, quem deu fui eu, para ver você conquistar o céu." E se ele é o limite, muitas e tantas vezes durante a vida, caso  tivermos outros destinos, devemos trocar de asas, de vôos e de sonhos, mesmo que estes sejam as peças principais dos motores que nos fazem partir, que nos abastecem, e nos transportam. Com muitos pensamentos ricos, ganhei impagáveis horas a mais em um dia novo. Entrei no carro e vi que na ignição dos meus sentimentos tem um chaveiro onde está escrito: "Que medo alegre, o de te esperar!"

Desejando alcançar os astros, sigo com os meus passos românticos. Para mim, a vida sempre será de contos. Se forem de fadas, ótimo. Ela será ainda melhor.

Mona.
Crato, abril de 2012.

2 comentários:

Fessora Amanda do Nordeste disse...

Nossa, Monalissa!
Que texto gostoso de ler, tão feminino e tão acertado.
Realmente, se pudéssemos levar os sentimentos à uma oficina, sairíamos com uma bela conta de peças quebradas e mão de obra.

Unknown disse...

Obrigada, minha querida Amanda.
Adorei as suas palavras.
Vindas de uma mulher especiamente feminina, e com um coracao de Maria como o seu, me fazem sentir uma felicidade pura. Um beijo enorme!